A arquitetura neoclássica é brega?

Nas últimas décadas, devido à onipresença da mídia nas nossas vidas – televisão, filmes, livros, imprensa, moda, sites – e sobretudo, na nossa formação intelectual, com uma mensagem sempre mais homogênea em torno do politicamente correto e também da busca consumista pela última versão das coisas, não é difícil que adotemos como se fossem autenticamente nossos, valores e visões tidos normalmente como atuais, acertados, como se expressassem uma visão supostamente avançada, contemporânea, consciente e crítica das coisas, quando mal passam de valores coletivizados e fortemente enraizados nessa espécie de mente coletiva que chamam de opinião pública, por algumas poucas pessoas com certo poder, sejam burocratas, sejam capitalistas em busca do lucro.

No campo das artes, e aqui, especificamente, da arquitetura, não é difícil perceber esta situação. Vemos a todo momento obras e projetos considerados autênticos e originais, quando não passam, a bem da verdade, de trabalhos basicamente… feios, ainda que sejam inusitados e “diferentes”.

E baseados nessa onda de trabalhos novos e originais, somos capazes de julgar que trabalhos tradicionais são feios e ultrapassados, quando na verdade, estes sim guardam algum zelo com uma estética superior, enquanto os trabalhos contemporâneos nada mais resultam além de tentativas fracassadas de oferecer uma estética pobre e carente de um fundamento mais humano e significativo.

É claro que houve no passado muitas construções tradicionais, porém feias, assim como há, também, atualmente, alguns poucos trabalhos geometrizados, minimalistas ou orgânicos, visualmente enxutos, porém agradáveis aos olhos.

Mas de modo geral, em qualquer cidade turística, é ao redor dos prédios tradicionais, e não ao redor dos arranha-céus contemporâneos (ou já nem tão contemporâneos) que as multidões de turistas se amontoam para apreciar.

Nessa linha, percebe-se atualmente, de forma ainda individual e tímida, o esforço de alguns construtores para agregarem componentes neoclássicos (ou de outros estilos) em suas obras, para alcançarem um resultado estético mais elaborado e, portanto, bonito.

Sobre estes trabalhos, já ouvi o infeliz juízo de “penteadeira de puta“, o qual recebeu esta bela resposta, os parênteses são meus:

Penteadeira de Puta

Sinceramente, eu não entendo uma certa crítica que certas pessoas têm com a arquitetura neo(classica) de muitos lançamentos de Balneário (Camboriú)… Quando é postado blocões com paredes cegas nas laterais e meia duzia de janelinha de banheiro na fachada em qualquer cidade do Brasil, o povo aqui aplaude diz que é uma maravilha, agora eu posto um lançamento de uma das maiores construtoras do Brasil, um empreendimento de alto patrão, e com uma arquitetura talvez duvidosa, mas muuuito melhor que muitos empreendimentos por ai, o povo massacra, fica exigente, diz que a lateral tá isso, que a base é aquilo… enfim não consigo entender essa exigência… arquitetura vai alem de cimento e tijolo, o estilo do prédio reflete toda uma história e cultura da cidade de Balneário, arquitetura “neo” aqui é sinônimo de luxo e assim vai ser por muito tempo…

Por que em vez de entrar aqui no meu thread e dizer que ele te dá ânsia, você não vai procurar seus blocões lindos e comentar o quanto a “arquitetura” deles é maravilhosa, somente pelo fato deles não serem neoclássicos?

O fato é, que para quem tem alguma sensibilidade estética fundamentada por um mínimo de conhecimento sobre nossa tradição artística ocidental, tais prédios, com alguns requintes neoclássicos, oferecem muito mais “graça” para seus arredores, do que esta ainda maioria de prédios modernistas, brutalistas ou, vá lá, “pós-modernos“, desprovidos de qualquer traço de ordem, que venha a refletir-se em alguma harmonia estética.

Penteadeira de Meninas Virgens

Se traços decorativos, presentes em fachadas, trazem consigo elementos de ordens estéticas milenares e são considerados “bregas”, só posso concluir que é então atrás do brega que todos devemos correr, sem pestanejar.

Porque nas formas simplórias e econômicas das fachadas modernistas, nos excessos de curvas despropositadas da arquitetura orgânica, nas formas robustas e volumosas dos prédios brutalistas ou ainda – e especialmente – nos exercícios imaginativos com formas geométricas sem sentido das construções contemporâneas, tudo que conseguimos compreender, sempre após um esforço hercúleo e fracassado de compreensão, é que se assemelham àquela criança que faz seu primeiro trabalho artístico, naturalmente caótico e sem sentido, e corre em direção ao pai em busca de algum reconhecimento, que lhe é concedido sempre por amor e consideração, e nunca por esperar que de uma criança surja um resultado estético avançado e digno de reverência.

Outra discussão sobre o tema, aqui.