Arquitetura Neoclássica

Publicidade

Arquitetura Neoclássica é o estilo arquitetônico que, em linha com a tendência artística universal do neoclassicismo, resulta da recuperação das características formais da Antiguidade Clássica grega e romana. Na história da arquitetura, este estilo surge após o barroco tardio e rococó, no período em que a tradição da Grand Tour foi um marco na educação cultural entre as gerações de novos artistas e de toda a classe aristocrática e alta burguesia.

O período de desenvolvimento deste estilo coincide com a Revolução Industrial.

Não obstante os estilos precursores propriamente ditos, como o de Andrea Palladio, posteriormente seguido pelo palladianismo, que se difunde em Inglaterra e em seguida por todo o mundo e que vem influenciar notavelmente a arquitetura neoclássica, o neoclassicismo propriamente dito teve início depois de meados do século XVIII até aos inícios do século XIX (aproximadamente entre 1755 e 1830), e difundiu-se por todos os países ocidentais, acabando por influenciar a produção arquitetônica da Rússia, Estados Unidos e América Latina.

Embora se trate dum fenômeno internacional, a arquitetura neoclássica foi caracterizada por diferentes correntes conforme a época e as diferentes tradições estabelecidas anteriormente nos vários países. Neste sentido, torna-se difícil conceber uma periodização rigorosa: na verdade, o neoclassicismo não só se enquadra numa extensa corrente fundada sobre o estudo da arquitetura clássica (já a partir da arquitetura do século XVI), como se manteve em voga durante todo o século XIX, no decorrer do ecletismo.

Neoclassicismo no século XVIII

O neoclassicismo setecentista foi essencialmente uma reação ao Rococó. Para além da recuperação dos princípios da arquitetura do século XVI e palladiana, o início do racionalismo neoclássico surge como resposta antibarroca que teve a sua origem com as obras teóricas do século XVII de François Blondel, Claude e Charles Perrault, e, no século XVIII, de Colen Campbell.

O desenvolvimento da arquitetura neoclássica contribuiu para três orientações fundamentais. A primeira ocorreu no campo da crítica arquitetônica, com a divulgação dos escritos de Marc-Antoine Laugier, Carlo Lodoli, Francesco Milizia, Étienne-Louis Boullée, Claude-Nicolas Ledoux e outros, que favoreceram a transposição do Iluminismo na arquitetura, afirmando tais princípios relacionados com o racionalismo e o funcionalismo que conduziriam a um novo ideal estético, com predileção para formas geométricas elementares. Marc-Antoine Laugier, no seu Ensaio sobre a arquitetura, sustentava que a natureza era o princípio originário da arquitetura; o seu edifício ideal era definido por colunas livres, sem pilares, embasamentos e outros elementos da tradição renascentista e pós-renascentista. Ademais, no seu tratado expôs uma concepção racional do classicismo, apoiando o conceito da chamada “cabana rústica” do homem primitivo como expressão da verdadeira necessidade humana de abrigo.

Dentre os princípios do pensamento de Lodoli encontra-se a oposição à interpretação do dogma vitruviano, que havia ofuscado o verdadeiro significado da arquitetura: a sua funcionalidade. Sucessor de Ludoli foi Milizia, o mais influente dos teóricos da arquitetura italiana de fins do século XVIII que, em 1768, na introdução do seu tratado Memorie degli architetti antichi e moderni, declara-se partidário da teoria da imitação, conduzindo-a a um desenvolvimento maior que Laugier, reconhecendo dois princípios da arquitetura que se refere à natureza: o grego como imitação da cabana primitiva e o gótico como imitação do bosque. Milizia sustentava que a arquitetura não deveria ser uma mera imitação da natureza, mas da beleza da natureza. Todavia, nem todas as teorias setecentistas foram caracterizadas por tamanho rigor. Giovanni Battista Piranesi foi um forte opositor de Ludoli e Laugier, reivindicando a “louca liberdade de trabalhar o capricho”. É importante salientar, mesmo que indiretamente, foi a obra do filosofo Jean-Jacques Rousseau que, afirmando que a liberdade natural do homem hoje perdida dentro de uma sociedade rígida, orientou a arquitetura neoclássica em direção a uma maior liberdade formal (ecletismo).

A segunda orientação da origem do neoclassicismo surge da atividade antiquária com a redescoberta da história grega e romana, as pesquisas arqueológicas na Grécia e Roma, e o começo de um crescente interesse nas escavações em Herculano e Pompeia (1719 e 1738), para além da publicação de importantes obras literárias como a História da Arte Antiga de Johann Joachim Winckelmann, que introduziria a dupla definição do ideal de beleza da arte antiga, caracterizado como “tranquila simplicidade e nobre grandeza”. em contraste com o esplendor do barroco e do rococó, considerado por alguns críticos da época, como o italiano Francesco Milizia, falsas expressões do irracional e do enganoso. Essa noção central ressaltada pelo autor revelaria a meta da arte, aquilo que a torna inimitável e, ao mesmo tempo, faz dela um modelo a ser imitado.

Não menos importante foi a divulgação de publicações que compunham reproduções das antiguidades gregas e romanas. Destas, destacam-se as Antiguidades de Atenas de James Stuart que, em paralelo com a subsequente publicação, influenciaram a formação do novo estilo arquitetônico, sobretudo o transalpino, e as numerosas estampas de Giovanni Battista Piranesi, retratando a antiguidade romana.

Neste contexto, grande parte das críticas atribuem normalmente um papel importante ao ambiente romano na definição dos novos gostos arquitetônicos. Segundo o historiador David Watkin, a linguagem do neoclassicismo internacional foi criada em Roma por volta de 1740, por pensionistas franceses da Academia de França, que, refutando a exuberante ornamentação da arquitetura do barroco tardio, dedicaram-se à projeção de vários edifícios públicos, inspirados pelas antigas construções da Roma Antiga.

A terceira orientação, de natureza sócio-política, está na postura da nova classe burguesa que estabelece no neoclassicismo o espírito conservador, o ideal republicano da revolução política (1789), o racionalismo da revolução industrial (1760–1830) e o romantismo nacionalista e individualista.

Do ponto de vista ideológico, no Neoclassicismo setecentista é possível definir essencialmente três períodos: um primeiro (1715–1740) no qual emergem os traços particulares do iluminismo; um segundo de consolidação (1740–1780), em que prevalecem aspectos filológicos, arqueológicos e acadêmicos; e finalmente um terceiro (1780–1805) que se refere à arquitetura revolucionária de Étienne-Louis Boullée e Claude-Nicolas Ledoux, cujas obras (como o Cenotáfio de Newton ou a Salina Real de Arc-et-Senans) inserem-se perfeitamente no ambiente cultural dominado por nomes como Isaac Newton, Voltaire, Denis Diderot e Montesquieu, constituindo o emblema do neoclassicismo vinculado ao Iluminismo e à Revolução Francesa.

No que respeita ao estilo padrão, a principal diferença que se verifica na passagem de uma tendência para outra reside na forte prevalência do “linear” em relação ao “pictórico”, entendida como o domínio da razão sobre a emoção: “quanto mais uma linha descrevesse alguns corpos simples, dispostos frontalmente como um baixo-relevo perfeito, mais essa linha, para o artista neoclássico, podia realçar a função.”O carácter linear tornou-se expressão de uma intencionalidade projetual característica de toda a arte neoclássica. Em particular, o princípio de correspondência entre a forma e a função estática conduziu à precisão escrupulosa das forças e resistência dos materiais, exaltando o conhecimento científico dos engenheiros a nível estético.

A utilização das ordens e tímpanos, as perspectivas e planos simétricos, a correspondência entre o interior e o exterior, bem como a utilização de volumes simples e bem definidos na definição dos vários edifícios, tornaram-se elementos característicos da composição arquitetônica. No entanto, apesar da aparente rigidez das regras combinatórias, o estilo padrão revelou ser bastante flexível, variando do minimalismo de Boullée para uma disposição articulada que amiúde caracterizaria os espaços interiores.

Os ideais de pureza formal acumulados na idade neoclássica conduziram a uma autonomia extrema do projeto arquitetônico a partir de outros componentes (pintura e escultura). As faustosas decorações pictóricas dos tetos, que tinham atingido o auge no período anterior, finalmente acabaram.

Foram realizadas inovações consideráveis especialmente no planeamento urbano, nas intervenções promovidas entre os séculos XVIII e XIX na Inglaterra, França e Rússia, com a criação de espaços e complexos urbanísticos formados pela agregação de unidades de construção individuais. Em todo o caso, a maior influência do Iluminismo no campo arquitetônico não é tão perceptível na linguagem, mas na tipologia, uma vez que alguns tipos de edifícios, como teatros, bibliotecas, hospitais e outros edifícios de utilidade pública, prestavam-se mais a modificações do que outros.

Neoclassicismo dos séculos XIX e XX

O Neoclassicismo permaneceu a maior corrente na Europa desde a segunda década do século XVIII até ao século XIX. No entanto, foi acompanhado por novas correntes culturais, expressão de várias mudanças da sociedade, como o neo-gótico, neo-renascimento, o neo-barroco e o neo-românico. A época oitocentista foi o século de Napoleão Bonaparte, da Restauração e da afirmação dos estados nacionais; foi um século assinalado pela Revolução Industrial, que mudou os cenários sociais e criou novas oportunidades para o desenvolvimento, sobretudo na Inglaterra.

Esse aparato formal que ressentiu profundas alterações pela sobriedade e sumptuosidade da arquitetura napoleônica (o estilo império que data de 1805—1814), foi seguido pelo chamado Classicismo da Restauração (1814–1840). Na segunda metade do século, o neoclassicismo tornou-se o estilo dos estados burgueses enriquecidos com a industrialização, enquanto que nas primeiras décadas do século XX, estaria presente em toda a arquitetura anacrônica ostensiva de vários países, incluindo os Estados Unidos, Itália e Alemanha, sustentando-se a nível ideológico e perdendo inclusive qualquer significado histórico.

Do ponto de vista compositivo, a arquitetura oitocentista tornou-se mais rigorosa, prestando maior atenção filológica ao uso de formas antigas, e a linguagem decorativa tornou-se mais rica e expressiva; no entanto, a procura por resultados efetivos prevaleceu sobre a expressão de um elevado ideal intelectual. Assim, o neoclassicismo sobreviveu na Europa, Estados Unidos e nas colônias disseminadas nos diferentes continentes, mas os vários edifícios construídos, e apesar dos elevados padrões de qualidade, demonstraram uma fraca capacidade de avanço e progresso. Paradoxalmente, os princípios básicos da tradição neoclássica (lógica, técnica construtiva, uso racional de materiais relativos à sua função etc.) foram recuperados, num fundamento efetivamente anticlássico, a partir dos arquitetos do neogótico.

O registo invariável do estilo, em parte herdado do século anterior, caracteriza-se por plantas cobertas, constituídas por formas regulares; pela busca da simetria na planta e alçado; dando-se preferência por edifícios desdobrados horizontalmente. Os materiais empregues no exterior foram principalmente a pedra, o gesso branco ou cromado, e o mármore, que normalmente escondia elementos metálicos utilizados para reforço das paredes.

Influência neoclássica na arquitetura do século XX

Como se pôde observar, o estilo neoclássico inscreve-se num período duradouro, confluindo no ecletismo e impulsionando as primeiras décadas do século XX. No século XX, a par das principais referências históricas, como as encontradas nos principais monumentos de Washington, em diversos países desenvolveu-se uma série de tendências de inspiração clássica e neoclássica.

Na Itália, após o esplendor retórico do já citado Monumento de Vítor Emanuel II, assistimos a uma simplificação do vocabulário arquitetônico que, contudo, durante o Fascismo, permanece substancialmente de cunho classicista; os novos modelos propostos naquela época continuam, com algumas excepções (vide Estação de Florença Santa Maria Novella), ainda associados à simetria e a uma decoração antiga, cingida aos seus elementos essenciais. Isso viria a repercutir-se naquele que é o Neoclassicismo simplificado típico de Marcello Piacentini e que se enquadra na corrente arquitetônica definida mais apropriadamente de monumentalista. Estes exemplos, apesar de em parte revalorizados pela crítica mais recente, eram muitas vezes considerados grotescos e expressão de um provincianismo longe das correntes arquitetônicas e de pensamento mais evoluído e internacional do Movimento Moderno: um exemplo é o Palazzo della Civiltà Italiana, inspirado no modelo do Coliseu, privado de decoração (também chamado de Coliseu quadrado).

Na Alemanha, os planos de Adolf Hitler tinham em vista alterar a face da capital, transformando-a numa cidade monumental. O autor dos projetos, que jamais seriam concretizados, foi Albert Speer, um amigo pessoal do Führer. A maciça cúpula de caixotões da Große Halle, baseada na modelo do Panteão de Roma, teria representado, com os seus mais de 200 metros de diâmetro, o fulcro da nova Berlim; no exterior, os desenhos mostram uma poderosa colunata clássica aberta para uma enorme praça para comícios, tudo numa escala colossal. Exemplos semelhantes podem também ser encontrados na Rússia e nos países diretamente influenciados pela União Soviética, como a Polônia e a China.

O neoclassicismo simplificado pode ser encontrado nos últimos trabalhos de Auguste Perret e inclusive no crematório de Estocolmo, de Gunnar Asplund (“neoclassicismo escandinavo”). Alguns críticos têm ainda definido como neoclássico o Movimento Moderno (incluindo Ludwig Mies van der Rohe) nos termos da monumentalidade e simetria.

O repertório clássico alcançaria um período de intensa fortuna em finais dos anos 70, no âmbito do pós-modernismo (e na considerada nova arquitetura clássica, movimento que expressa uma clara liberdade estilística livre do vínculo modernista. Frontões, colunas e outros elementos tradicionais voltariam mais tarde a estar em voga: um célebre exemplo é o frontão clássico do arranha-céu AT&T Building (atual Sony Building), que Philip Johnson construíra em 1984 na cidade de Nova Iorque.

Publicidade