Modernismo e Ideologia

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Com um mini-cadeião nas mãos

Com um mini-cadeião nas mãos

“Decadência”

Encontrei esse textinho sendo compartilhado no Facebook:

Em 1908, um estagiário de arquitetura de 21 anos trabalhava no escritório de Auguste Perret, arquiteto criador do teatro Champs-Élysiées.

Um dia Perret perguntou ao jovem Charles-Édouard: “Você já foi ver o palácio de Versalhes?”. O jovem respondeu: “Não, nunca irei!”. “E por que não?”, perguntou Perret. “Porque Versalhes e a época clássica não são senão decadência”, respondeu o estagiário.

Quem viria a ser esse estagiário arrogante e desdenhoso?

Le Corbusier, o homem que transformou a arquitetura na mais terrível massa de quadrados bizarros, doentes e inexpressivos. As cidades modernas com seus prédios sem vida nasceram dessa prepotência que recusa a beleza do passado; nasceram de uma alma que, decadente ela mesma, acusa de decadência o que a tradição lhe ofertou.

Fonte: A Sagração da Primavera, Modris Ekstein. Via A Formação da Imaginação.

A Ideologia por trás do Modernismo

As prioridades da arquitetura desde o surgimento do modernismo até a época contemporânea demonstram claramente o caminho meio sem volta que tomamos.

O modernismo surgiu aos poucos entre os anos 1890 e 1910, mas começou a influenciar as artes efetivamente na mesma época em que o socialismo/comunismo surgia como uma empolgante novidade na Rússia, aquele sistema político que enfim implantaria a verdadeira e completa justiça social no mundo. Risos.

Os intelectuais que viveram e atuaram em torno das décadas 1920 até 1960 ainda não tinham a noção que temos hoje de como o artificialismo autoritário dos governos socialistas – sempre ditatoriais – viriam a deformar e degradar as sociedades das quais tomavam frente.

Para eles, em especial os arquitetos, era plenamente justificável substituir o individualismo personalista das construções burguesas – que eles acreditavam serem o símbolo de poder dos responsáveis pelas injustiças da época – pelo coletivismo igualitário (e portanto, despersonalizado) dos prédios multi-familiares russos, aquele povo que prometia construir o paraíso da igualdade social na Terra.

Por serendipidade, descobri há um ano mais ou menos o que aconteceu com a Av. Rio Branco no Rio sob o aval de nomes como Lúcio Costa, e só então, me dei conta do que a arquitetura “moderna” fez e segue fazendo no mundo.

A estética arquitetônica contemporânea e seus traços variados – modernista, funcionalista, industrial, minimalista, abstrata, orgânica, brutalista etc – representaram um rompimento total com a estética arquitetônica greco-romana que vinha se alternando dentro de uma mesma tradição ocidental européia, porque aqueles primeiros arquitetos viam, por influência de Marx, a tradição européia como a causa de toda injustiça social que havia no mundo.

O ocidente era decadente.

O que era uma visão míope, uma vez que mesmo com todos os seus defeitos, o ocidente é a cultura mais avançada que já pisou neste planeta, tantos em termos tecnológicos, quanto em termos institucionais.

Le Corbusier, como um bom socialista, demonstrava um desprezo absoluto pela arquitetura tradicional porque ela simbolizava toda a tradição ocidental que todo socialista combate.

Portanto, o fato de figuras como Le Corbusier continuarem como referência absoluta na arquitetura contemporânea, faz dos arquitetos de hoje soldados da ideologia sem que tenham a menor noção do que estão ajudando a perpetuar.

E é mentira?

E é mentira?

Resolução de Problemas

Veja bem, eu entendo que a sociedade contemporânea é muito diferente daquela dos séculos anteriores ao XX que nos legaram os mais belos edifícios. Nossa sociedade atual veio com demandas diferentes que exigem dos arquitetos soluções à altura.

Numa discussão no Facebook sobre a feiura da arquitetura contemporânea, vi um rapaz comentar que a função da Arquitetura é resolver problemas.

Concordo.

Só acho que os arquitetos esqueceram que a Estética também é um problema a ser resolvido, uma questão de ordem psicológica, o que não é questão secundária ou, até mesmo, como vemos bastante, uma questão de projeto dispensável.

Sim, é

Sim, é

Revolução

O que a família russa Romanov tem a ver com a Avenida Rio Branco do Rio de Janeiro?

[…]

O modernismo, como movimento filosófico e, portanto, estético, tem raízes comuns com as alas progressistas da esquerda contemporânea.

Famosos arquitetos modernistas eram progressistas, pela própria natureza do movimento moderno.

Muitos eram declaradamente comunistas, como Le Corbusier e Niemeyer. Naquela época, certamente, movidos por um idealismo ingênuo. Não tiveram a visão em perspectiva que temos hoje do passado, visão que permite entender melhor o que acontecia, enquanto não tínhamos a menor noção do que acontecia. E o que aconteceu é que o Comunismo foi um projeto social que fracassou onde quer que tenha sido implementado.

As origens dos movimentos de esquerda atuais remontam à mal fadada Revolução Francesa, e passam pelos ideais revolucionários de 1917, ano da Revolução Russa, quando toda a família Romanov foi sumariamente executada pelos bolcheviques.

Uma pessoa de bom coração só de diz revolucionária até conhecer os terrores das revoluções, e se continua revolucionária conhecendo-os, é porque não tem bom coração. Não queira saber quantos milhares de pessoas foram decapitadas nas guilhotinas de outra tão aclamada e desconhecida revolução, a francesa.

Os Romanov - Todos e.xe.cu.ta.dos

Os Romanov – Todos e.xe.cu.ta.dos

Destruir para reconstruir. Tudo pela causa, que, na teoria, é nobre e perfeita, mas que na prática, bem, vocês sabem que na prática a teoria é outra.

A visão revolucionária assumia que o estado a que a sociedade havia chegado não era o que deveria ser (o ideal da justiça social), e que portanto deveria ser destruída para ser reconstruída. Marxistas rejeitam até hoje tudo que na verdade ajudou a sociedade alcançar esse nível incrível de desenvolvimento. Mas nenhum desenvolvimento será suficiente comparado com o ideal. O ideal é utópico, inalcançável, impraticável.

A realidade sempre vai perder para o inefável ideal.

Mas revolucionários realmente acreditam que é possível criar na Terra uma sociedade perfeita.

O movimento cultural chamado modernismo do qual a arquitetura modernista fazia parte, foi um movimento profundamente ideológico, que teve origens comuns com o socialismo, e como tal, tentou reinventar a sociedade em seu âmbito espacial, através da arquitetura e do urbanismo. Valendo-se do poder mobilizador, influenciador e transformador de comportamentos da arquitetura, tentou remodelar a sociedade de acordo com seus preceitos do que seria ideal.

Não deu certo. Hoje o que temos na maioria das grandes cidades são famílias encaixotadas em pombais mais altos. Alguns, pombais de luxo. Edifícios monumentalmente desproporcionais à realidade humana. Ambientes urbanos padronizados, entediantes, monótonos, frios e impessoais. Igualou a todos na miséria do anonimato e da insignificância.

Modernistas conseguiram tornar seu objeto de trabalho insignificante. O que antes eram edifícios que personalizavam ruas e esquinas, hoje são edifícios despersonalizados que passam despercebido. E quando se destacam, é por utilizarem formas bizarras.

Mas isso não bastou.

A sanha destrutiva modernista no Brasil do século XX foi especialmente revolucionária, em que tivemos destruições do patrimônio arquitetônico de avenidas inteiras, como a Avenida Paulista e a Avenida Rio Branco. Nova York também sofreu com o mesmo problema.

Avenidas

Avenidas

A mim causa espanto o que aconteceu com a Avenida Rio Branco do Rio de Janeiro.

O que era uma Avenida que simbolizava um tempo, constituída de edifícios no geral com estética muitíssimo refinada, as quais passaram por concursos de fachada, edifícios de altura média, que se adequavam de forma muito proporcional à largura da avenida, mantendo-a arejada, a iluminação natural, um espaço que foi por décadas espaço de encontro do carioca… tornou-se um corredor escuro de edifícios altos, despersonalizados, esteticamente nulos.

O que os arquitetos modernistas permitiram – e incentivaram – que se fizesse com as edificações antigas foi como se Oswald de Andrade ou Clarice Lispector tivessem queimado por completo, livros de Machado de Assis ou Aluísio de Azevedo. Foi como se para implementar um sistema político novo, você tivesse que fuzilar os representantes dos sistema antig… ops.

Toda Revolução surte o efeito contrário ao desejado

É bem sabido que modernistas odiavam – odiavam mesmo – construções ornamentadas.

Alegavam excessos, cafonice, que arquitetura não é ornamentação. E, especialmente nas nossas capitais, permitiram – e incentivaram – a demolição de centenas de casarões e edifícios antigos, para em seus lugares, construírem, orgulhosos, seus arranha-céus geométricos, simplórios e destituídos de qualquer atratividade estética que não fosse a imponência de sua magnitude volumétrica.

A intenção dos ideólogos do século XX, influenciados por Marx e pela própria Revolução Russa, era resolver as injustiças do mundo. O modernismo manifestava um traço idealista e ideológico revolucionário que, por natureza, pretende destruir o antigo para construir o novo. A ideia era que não era possível consertar o antigo, e sim destruí-lo para em seu lugar construir o novo.

No caso dos arquitetos modernistas, havia esse idealismo de refazer a sociedade, ao menos na parte urbana que lhes competia. E tentaram.

Mas o novo nem sempre sai conforme a encomenda.

O resultado, que deveria humanizar e equalizar as relações sociais, bem como democratizar o acesso a habitação, integrar o homem ao seu espaço, acabou surtindo o efeito contrário. Hoje o que temos são cidades constituídas de edifícios monumentais, elitizados, em escala completamente incompatíveis com a escala humana, edifícios e ambientes padronizados, monótonos, frios e impessoais.

O ato de sair às ruas e sentir-se parte de um ambiente urbano belo e acolhedor, tornou-se um ato de insegurança e desconexão com o ambiente.

[…] os belíssimos arranha-céus modernistas, com poucas janelas minúsculas, banheiros sem janela (somente exaustor), apartamentos cada vez menores, parecendo gaiolas, com uma vista fúnebre para o prédio vizinho, praticamente colado na janela.
E os edifícios comerciais, totalmente fechados com vidro e ventilados unicamente por uma central de ar condicionado com seus dutos imundos, empoeirados e cheios de colônias de bactérias.
Já existem diversos estudos na área da saúde onde constatam o aumento do estresse, transtornos psicológicos, problemas respiratórios, dermatológicos etc ao convívio nesses edifícios modernos.
Bom mesmo é a arquitetura antiga, com seus ambientes amplos, teto alto, grandes janelas e portas, balcões e varandas, pátios internos e vista para uma rua de vida pulsante. Priscila Bonifácio Mendes

Eu acredito que num futuro ainda distante, arquitetos usarão da lucidez de quem pode olhar para o passado com o desprendimento emocional que esta distância temporal permite, e verão que o modernismo foi um grande experimentalismo de técnicas e formas, estas quase sempre bizarras, sem qualquer significado humanizador. E que os resultados dessas práticas arquitetônicas quase sempre levaram a sociedade na direção oposta ao pretendido.

 

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